Texto do escritor Deonísio da Silva, publicado no Jornal do Brasil, em 18 de maio de 2011
Se para o MEC vale tudo, até o português errado, como está evidente no livro de língua portuguesa que adotou, então para que atormentar os alunos com tantos exames? Enem, Enade, vestibulares, concursos para funcionários, professores etc. foram instituídos para quê? Para humilhar os jovens, cujas respostas e redações servem de pasto às maledicências que depois são disseminadas na internet?
Pertenço a uma geração que precisou decorar trechos inteiros de Camões, começados por “As armas e os barões assinalados/ Que da ocidental praia lusitana/ Por mares nunca dantes navegados...”.
Cada estrofe tinha oito versos, e o objeto direto da oração principal estava no primeiro verso da primeira estrofe; o sujeito o aguardava no penúltimo da segunda estrofe, disfarçado ao lado de um gerúndio: “(cantando) espalharei por toda parte”.
Tínhamos certas técnicas. Espetar o sujeito e sair à cata dos objetos diretos, indiretos, adjuntos nominais, adjuntos adverbiais etc. Tinha valor aquele exercício? Tinha! Aprendíamos lógica, sintaxe, complexos plurais e gêneros, história antiga, astronomia, geografia. E aprendíamos a estudar! O melhor método era a relação bunda-cadeira-hora, sem a qual nada se aprende.
Geografia! Em Geografia tropeçava Castro Alves, poeta de nossa preferência, que fazia famosos rios atravessarem o Saara e situava Angola bem no meio do deserto! Mas escrevia bonito e fizera mais pela Abolição do que todos os que sabiam Geografia!“ Andrada! Arranca este pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta de teus mares!”.
E havia ainda Machado de Assis: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Até aqui, fácil, mas depois vinha o vocabulário. Gatuno, sabíamos o que era, mas peralta, pelintra, aluá, seguidilha e regaço, o que eram?
Machado não era o mais difícil. Vinha Gonçalves Dias, cujos versos, de tão belos, tinham ido parar no Hino Nacional: “nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio mais amores”. Wilson, de todos nós o mais lido, explicava: “no teu solo eles botaram depois”.
Depois era a vez de José de Alencar: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”. E ainda tivemos que ouvir no recreio, em irrepreensível lógica, que Iracema nascera no Piauí, que ficava além daquela serra, que ainda azula no horizonte”.
Depois chegaríamos a Euclides da Cunha. Para nos humilhar, um dos padres-professores leria um trecho de artigo de jornal. “Publicado em 1904!”, ele sublinhara, “quando os leitores ao menos sabiam sinônimos!”.
Depois dessas advertências repletas de exclamações, vinha o trecho: “Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubo... Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, S.Tomás de Aquino”.
Concluía: “esta é a primeira das questões dos deveres para casa, vamos à segunda....”. O jeito era dividir a tarefa em grupos: quem ficaria com os sinônimos de alentada, dissertação, consuetudinárias, antinomia, alarmado. E Borgonha, onde ficava Borgonha? Quem tinha sido Tomás de Aquino?
E ainda não tínhamos chegado ao Armagedon de Os Sertões, quando até os primeiros da classe se achariam analfabetos completos diante do estilo e das palavras do autor que tinha sido morto pelo amante da própria mulher. Um de nossos colegas foi ainda mais catastrófico: “Já pensou se ele sobrevivesse? Morreu aos 43 anos e já escrevia assim! Aos sessenta, usaria todo o dicionário e mais um pouco. Bom, dele só sei que nasceu em Cantagalo e morreu no Rio”.
Concluamos com Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Melancolias!
Se para o MEC vale tudo, até o português errado, como está evidente no livro de língua portuguesa que adotou, então para que atormentar os alunos com tantos exames? Enem, Enade, vestibulares, concursos para funcionários, professores etc. foram instituídos para quê? Para humilhar os jovens, cujas respostas e redações servem de pasto às maledicências que depois são disseminadas na internet?
Pertenço a uma geração que precisou decorar trechos inteiros de Camões, começados por “As armas e os barões assinalados/ Que da ocidental praia lusitana/ Por mares nunca dantes navegados...”.
Cada estrofe tinha oito versos, e o objeto direto da oração principal estava no primeiro verso da primeira estrofe; o sujeito o aguardava no penúltimo da segunda estrofe, disfarçado ao lado de um gerúndio: “(cantando) espalharei por toda parte”.
Tínhamos certas técnicas. Espetar o sujeito e sair à cata dos objetos diretos, indiretos, adjuntos nominais, adjuntos adverbiais etc. Tinha valor aquele exercício? Tinha! Aprendíamos lógica, sintaxe, complexos plurais e gêneros, história antiga, astronomia, geografia. E aprendíamos a estudar! O melhor método era a relação bunda-cadeira-hora, sem a qual nada se aprende.
Geografia! Em Geografia tropeçava Castro Alves, poeta de nossa preferência, que fazia famosos rios atravessarem o Saara e situava Angola bem no meio do deserto! Mas escrevia bonito e fizera mais pela Abolição do que todos os que sabiam Geografia!“ Andrada! Arranca este pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta de teus mares!”.
E havia ainda Machado de Assis: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Até aqui, fácil, mas depois vinha o vocabulário. Gatuno, sabíamos o que era, mas peralta, pelintra, aluá, seguidilha e regaço, o que eram?
Machado não era o mais difícil. Vinha Gonçalves Dias, cujos versos, de tão belos, tinham ido parar no Hino Nacional: “nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio mais amores”. Wilson, de todos nós o mais lido, explicava: “no teu solo eles botaram depois”.
Depois era a vez de José de Alencar: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”. E ainda tivemos que ouvir no recreio, em irrepreensível lógica, que Iracema nascera no Piauí, que ficava além daquela serra, que ainda azula no horizonte”.
Depois chegaríamos a Euclides da Cunha. Para nos humilhar, um dos padres-professores leria um trecho de artigo de jornal. “Publicado em 1904!”, ele sublinhara, “quando os leitores ao menos sabiam sinônimos!”.
Depois dessas advertências repletas de exclamações, vinha o trecho: “Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubo... Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, S.Tomás de Aquino”.
Concluía: “esta é a primeira das questões dos deveres para casa, vamos à segunda....”. O jeito era dividir a tarefa em grupos: quem ficaria com os sinônimos de alentada, dissertação, consuetudinárias, antinomia, alarmado. E Borgonha, onde ficava Borgonha? Quem tinha sido Tomás de Aquino?
E ainda não tínhamos chegado ao Armagedon de Os Sertões, quando até os primeiros da classe se achariam analfabetos completos diante do estilo e das palavras do autor que tinha sido morto pelo amante da própria mulher. Um de nossos colegas foi ainda mais catastrófico: “Já pensou se ele sobrevivesse? Morreu aos 43 anos e já escrevia assim! Aos sessenta, usaria todo o dicionário e mais um pouco. Bom, dele só sei que nasceu em Cantagalo e morreu no Rio”.
Concluamos com Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Melancolias!