Artigo de Rodrigo Constantino, publicado no jornal "O GLOBO", na edição de 1º de outubro de 2013.
“Não é possível discutir racionalmente
com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.” (Karl Popper)
Participo hoje do evento Oriente Médio:
Crise e Esperança, com os jornalistas Caio Blinder, Diogo Mainardi, Guga Chacra
e Reinaldo Azevedo. O tema está na ordem do dia, com toda a confusão na Síria e
o agora evidente fracasso da Primavera Árabe, que chegou a encantar muitos
“especialistas”.
A aparente tentativa de se aproximar do
Ocidente por parte do presidente iraniano Rouhani despertou novas esperanças em
muitos. Arrisco dizer que vão se decepcionar novamente. Ignoram a premissa
básica de que muitos na região simplesmente não aceitam a existência de Israel.
Em “The Oslo Syndrome”, Kenneth Levin
apresenta uma tese interessante de por que tantos judeus se enganam em relação
às intenções de seus inimigos. O fenômeno seria, antes de tudo, psicológico.
Vale resumi-lo, até porque não é do interesse apenas dos judeus, mas de todo o
Ocidente.
O autor vai buscar em Anna Freud parte
da explicação. Muitas crianças abusadas adotam um comportamento estranho de
culpa, como se algo de ruim nelas justificasse sua situação. No afã de
conquistar de alguma maneira o amor do parente que a abusa, a criança transfere
a responsabilidade para si própria.
Outra possível explicação diz respeito à
ingenuidade das crianças. O abuso normalmente vem junto com acusações de que
tal ato é consequência de alguma coisa errada que ela fez, e a criança aceita
tal fardo pelo valor de face.
Uma terceira possibilidade seria o
narcisismo típico da infância. As crianças estão inclinadas a se enxergar como
o centro do mundo e se atribuir poderes grandiosos. Isso cria a predisposição
para assumirem a responsabilidade de tudo aquilo que acontece com elas, bom ou
ruim.
Tais crianças se deparam com duas
escolhas: podem compreender que são vítimas de forças e circunstâncias fora de
seu controle, o que pode levar a certo desespero; ou podem atribuir os abusos
que sofrem a seu próprio comportamento equivocado, assumir responsabilidade e
alimentar culpa, o que cria a ilusão de controle da situação.
Caberia a própria criança, então, mudar
o comportamento, ser “boazinha”, e por meio dessa reforma ela seria deixada em
paz e o abuso terminaria. A primeira escolha é a mais realista. Mas a segunda
oferece uma quase irresistível alternativa ao desespero do confronto com a
realidade.
Agora podemos compreender melhor a reação
de muitos diante dos inimigos islâmicos. Uma sociedade acuada, difamada,
atacada e sob constante risco de abuso acaba desenvolvendo mecanismos de fuga
que transferem para si própria a culpa do que acontece. Ainda que seja só pela
esperança de, ao agir assim, ser deixada em paz por aqueles que a querem
destruir.
O acordo que Yasser Arafat recusou em
Camp David em 2000 deixou clara essa postura. Israel cedeu em praticamente
todas as demandas, inclusive a de um Estado Palestino com a capital em Jerusalém,
o controle do Monte do Templo, a devolução de aproximadamente 95% da margem
ocidental e toda a Faixa de Gaza, e um pacote de compensação de US$ 30 bilhões
para os refugiados de 1948.
O príncipe saudita Bandar exortou Arafat
a aceitar a generosa oferta, afirmando que rejeitá-la seria um crime. Arafat,
entretanto, escolheu o crime, pois seu terrorismo dependia da manutenção do
“bode expiatório”. A paz simplesmente não era do interesse das lideranças
palestinas, ligadas a grupos radicais.
Mas o desejo de acreditar na postura
“moderada” de grupos que ainda contam com grande contingente de fanáticos
religiosos é irresistível para um povo sitiado. Cada mínimo aceno na direção de
uma contemporização, ainda que seja uma tática dissimulada para ganhar tempo, é
visto como prova de que tudo será diferente e que, agora, haverá paz. Se ao
menos o nosso lado ceder mais um pouco...
Essa reflexão vale para muitos outros
casos. Podemos pensar nos empresários sempre difamados em uma cultura onde o
lucro é visto como fruto da exploração. Cansados de tanta propaganda enganosa e
tantos ataques, muitos resolvem ceder e até elogiar o socialismo. Pensam que
assim serão aliviados.
Ou então em um candidato que, “acusado”
de defender a privatização, vira um outdoor ambulante de marcas estatais. Ou,
por fim, em um grande veículo de imprensa que, insistentemente acusado de
“golpista” pelos verdadeiros golpistas, acaba cedendo e apelando para um
revisionismo histórico para agradar aos inimigos, hoje no poder.
Nada adianta, claro, quando o inimigo só
aceita a nossa destruição.
Rodrigo Constantino é economista e presidente do Instituto Liberal