Artigo do Prof. Denis Lerrer
Rosenfield, publicado no jornal O Globo - 02/07/2012
Para que se possa melhor
compreender os atuais debates em torno das questões ambientais, com reflexos na
vida das cidades e do campo, torna-se necessário compreender a mentalidade dos
ambientalistas radicais. Em vez de ponderações científicas, observamos cada vez
mais concepções de fundo religioso, em que os seus agentes, como uma espécie de
profetas, defendem a sua causa de uma maneira absoluta.
Argumentos científicos são cada
vez mais relegados a segundo plano, embora, sob a forma do disfarce, esse tipo
de ambientalista diz representar avanços científicos. O que está, na verdade,
em questão é uma mentalidade teológico-política, em tudo avessa ao pensamento
crítico. Vejamos os pontos estruturantes dessa mentalidade: a) o fim do mundo;
b) os profetas; c) o mal; d) a salvação.
O fim do mundo. Os ambientalistas
radicais ou religiosos - o que é a mesma coisa - vivem anunciando o fim do
mundo. Se não forem ouvidos ou atendidos, o planeta estará caminhando
inexoravelmente para a catástrofe final, que já se anuncia nos dias presentes.
O que falam: "Se vocês não nos ouvirem, o pecado ambiental os
fulminará!"
Um dos seus cavalos de batalha
reside no anúncio do "aquecimento global", que estaria produzindo
resultados que confirmariam suas profecias. Curioso nesse caso é que exercem
tal influência sobre a opinião pública que nenhuma contestação é autorizada,
principalmente as científicas. Tornou-se "normal" falar do
aquecimento global planetário como se fosse uma verdade inconteste. Quem
discorda é anatematizado. Cientistas que defendem essas posições, também
chamados ecocéticos, têm, mesmo, dificuldades em publicar seus artigos. Os
ecorreligiosos procuram, de todas as maneiras, fazer valer as suas posições.
Em entrevista ao jornal O GLOBO
(20/6/2012), Richard Lindzen, cientista renomado do MIT, antes defensor das
previsões alarmantes do aquecimento global, contesta atualmente esse
catastrofismo, tendo se tornado um ecocético, ou seja, assumindo posições
propriamente científicas. Entre outros pontos, assinala que não houve um
aquecimento significativo nos últimos 15 anos e, desde 1995, a temperatura
média global do planeta pouco variou. No entanto, os anúncios proféticos do
aquecimento global não cessam, embora não exista aquecimento que conduza ao
anunciado desastre final.
Profetas. Nos últimos 150 anos, a
temperatura média global variou entre 0,7 e 0,8 grau Celsius, o que invalidaria
qualquer catastrofismo. No entanto, os profetas do fim do mundo continuam com
previsões cada vez mais sombrias. Essas previsões são incessantemente
desmentidas pelos fatos, porém sempre inventam novas, com supostos aquecimentos
progressivos que tornarão o planeta inabitável em poucas décadas. Em um curto
espaço de tempo, catástrofes naturais tomariam conta do mundo. Não houve
nenhuma grande catástrofe natural, mas seus anúncios apocalípticos continuam. A
mentalidade religiosa reveste-se, contudo, de uma roupagem científica. Agem
religiosamente e, de acordo com a concepção moderna, procuram lhe conferir um
ar de cientificidade.
O mal. Note-se que essas
previsões do desastre final têm um foco determinado, um objetivo que estrutura
sua ação política: o capitalismo. Ou seja, o fim do mundo é consequência do
pecado, do fato de as pessoas viverem e agirem segundo os valores de uma
sociedade baseada na economia de mercado, no direito de propriedade e no ganho,
denominado pejorativamente de lucro.
Os ecorreligiosos estruturam-se
em ONGs nacionais e internacionais respaldadas militantemente pelos movimentos
sociais. Observe-se que esses, por exemplo, são apoiados, inclusive
organizativamente, pela Igreja Católica e, em menor medida, pela Luterana. No
Brasil, a CPT (Comissão Pastoral da Terra) e o CIMI (Conselho Indigenista
Missionário) verbalizam, mesmo, essa postura profética, advogando pela
eliminação da propriedade privada como o grande mal. O MST e organizações afins
seguem a mesma posição.
A propriedade privada e a
economia de mercado seriam responsáveis pela pobreza e pelo desastre ambiental.
Uma vez o capitalismo eliminado, o mal extirpado, o fim do mundo não se
consumaria, e o socialismo/comunismo ocuparia o seu lugar. A catástrofe
ambiental, o apocalipse, seria evitada.
Note-se que símbolos do mal são o
agronegócio e a produção de energia. As lutas desses ambientalistas e
movimentos sociais estruturam-se segundo essas bandeiras. Na verdade, pretendem
aumentar a pobreza com alimentos mais caros, que poderia tornar a vida humana
insustentável no planeta. Querem que se produza menos, quando há mais bocas no
mundo para serem alimentadas. Defendem uma energia mais cara, combatendo Belo
Monte, que oferecerá energia renovável e barata. Posicionam-se contra as
plantações de cana-de-açúcar e a produção de etanol, outro exemplo de energia
renovável.
Os ecorreligiosos têm também a
versão dos ambientalistas chiques, que adotam essas posições em nome do
politicamente correto. Gostam de aparecer como corretíssimos, em seus carros
poluidores, utilizando celulares e vivendo em grandes apartamentos e mansões.
Não deveriam ler jornais nem livros, nem utilizar papéis de qualquer espécie,
pois são feitos de celulose, oriunda de florestas plantadas. Não se esqueçam
que o agronegócio é símbolo do mal.
Salvação. A salvação está, no
entanto, à mão de todos os que seguirem os profetas. Basta lutar contra o
capitalismo, desrespeitar a propriedade privada, organizar-se militantemente
contras as hidrelétricas, invadir grandes propriedades, pois, assim, o novo
mundo estará ao alcance de todos. Outro mundo é possível, eis o lema que é a
todo momento realçado. Todos os habitantes do planeta deveriam se dispor à
conversão para a vida simples e primitiva, aquela que ganha, inclusive, a forma
utópica - e falsa - da solidariedade originária. Abandonem a civilização e nos
sigam: nós somos o caminho, a floresta originária o destino.
DENIS LERRER ROSENFIELD é
professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.