General responde a Mirian Leitão
Tu ne cede Malis, sed ito audentior contra.
(Jamais ceda ao mal, mas lute cada vez mais bravamente contra ele.)
Extraído do livro VI da Eneida, de Virgílio
À Senhora Jornalista Miriam
Leitão
Li o seu artigo "ENQUANTO ISSO",
com todo cuidado possível. Senti, em suas linhas, que a senhora procura mostrar
que os MILITARES BRASILEIROS de HOJE, são bem diferentes dos MILITARES
BRASILEIROS de ONTEM. Penso que esse é o ponto central de sua tese. Para criar
credibilidade nas suas afirmativas, a senhora escreveu: "houve um tempo em
que a interpretação dos militares brasileiros sobre LEI E ORDEM era rasgar as
leis e ferir a ordem. Hoje em dia, eles demonstram com convicção terem
aprendido o que não podem fazer". Permita-me discordar dessa afirmativa de
vez que vejo nela uma injustiça, pois fiz parte dos MILITARES DE ONTEM e nunca
vi os meus camaradas militares rasgarem leis e ferir a ordem. Nem ontem nem
hoje. Vou demonstrar a minha tese.
No Império, as LEIS E A ORDEM foram
rasgadas no Pará, Ceará, Minas, Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul pelas
paixões políticas da época. AS LEIS E A ORDEM foram restabelecidas pelo Grande
Pacificador do Império, um Militar de Ontem, o Duque de Caxias, que com sua
ação manteve a Unidade Nacional. Não rasgamos as leis nem ferimos a ordem. Pelo
contrário.
Vem a queda do Império e a República. Pelo
que sei, e a História registra, foram
políticos que acabaram envolvendo os velhos Marechais Deodoro e Floriano nas
lides políticas. A política dos governadores criando as oligarquias regionais,
não foi obra dos Militares de Ontem, quando as leis e a ordem foram rasgadas e
feridas pelos donos do Poder, razão maior das revoltas dos tenentes da década
de 20, que sonhavam com um Brasil mais democrático e justo. Os Militares de
Ontem ficaram ao lado da lei e da Ordem. Lembro à nobre jornalista que foram os
civis políticos que fizeram a revolução de 30, apoiados, contudo, pelos
tenentes revolucionários, menos Prestes, que abraçou o comunismo russo.
Veio a época getuliana, que, aos poucos,
foi afastando os tenentes das decisões políticas. A revolução Paulista não foi
feita pelos Militares de Ontem e sim
pelos políticos paulistas que não aceitavam a ditadura de Vargas. Não foram os
Militares de Ontem que fizeram a revolução de 35 (senão alguns, levados por
civis a se converterem para a ideologia vermelha, mas logo combatidos e
derrotados pelos verdadeiros Militares de Ontem); nem fizeram a revolta de 38;
nem deram o golpe de 37. Penso que a
senhora, dentro de seu espírito de justiça, há de concordar comigo que foram as
velhas raposas GETÚLIO - CHICO CAMPOS - OSWALDO ARANHA e os chefetes que
estavam nos governos dos Estados, que aceitaram o golpe de 37. Não coloque a
culpa nos Militares de Ontem.
Veio a segunda guerra mundial. O Nazismo e
o Fascismo tentam dominar o mundo. Assistimos ao primeiro choque da hipocrisia
da esquerda. A senhora deve ter lido - pois àquela época não seria nascida -,
sobre o acordo da Alemanha e a URSS para dividirem a pobre Polônia e os
sindicatos comunistas do mundo ocidental fazendo greves contra os seus próprios
países a favor da Alemanha por imposição da URSS e a mudança de posição quando
a "Santa URSS" foi invadida por Hitler. O Brasil ficou em cima de
muro até que nossos navios (35) foram afundados. Era a guerra, a FEB e seu
término. Getúlio - o ditador - caiu e vieram as eleições. As Forças Armadas
foram chamadas a intervir para evitar o
pior. Foram os políticos que pressionaram os Militares de Ontem para manter a
ordem. Não rasgamos as leis nem ferimos a ordem. Chamou-se o Presidente do
Supremo Tribunal Federal para, como Presidente, governar a transição. Não se
impôs MILITAR algum.
O mundo dividiu-se em dois. O lado
democrático, chamado pelos comunistas de imperialistas, e o lado comunista com
as suas ditaduras cruéis e seus celebres julgamentos "democráticos".
Prefiro o primeiro e tenho certeza de que a senhora, também. No lado ocidental
não se tinham os GULAGs.
O período Dutra (ESCOLHIDO PELOS CIVIS E
ELEITO PELO VOTO DIRETO DO POVO) teve seus erros - NUNCA CONTRA A LEI E A ORDEM
- e virtudes como toda obra humana. A colocação do Partido Comunista na
ilegalidade foi uma obra do Congresso Nacional por inabilidade do próprio Carlos
Prestes, que declarou ficar ao lado da URSS e não do Brasil em caso de guerra
entre os dois países. Dutra vivia com o "livrinho" (a Constituição)
na mão, pois os políticos, nas suas ambições, queriam intervenções em alguns
Estados, inclusive em São Paulo. A senhora deve ter lido isso, pois há vasta
literatura sobre a História daqueles idos.
Novo período de Getúlio Vargas. Ele já não
tinha mais o vigor dos anos trinta. Quem leu CHATÔ, SAMUEL WEINER (a senhora
leu?) sente que os falsos amigos de Getúlio
o levaram à desgraça. Os Militares de Ontem não se envolveram no caso, senão
para investigar os crimes que vinham sendo cometidos sem apuração pela Polícia;
nem rasgaram leis nem feriram a ordem.
Eram os políticos que se digladiavam e
procuravam nos colocar como fiéis da balança. O seu suicídio foi uma tragédia
nacional, mas não foram os Militares de Ontem os responsáveis pela grande
desgraça.
A senhora permita-me ir resumindo para não
ficar longo. Veio Juscelino e as Forças Armadas garantiram a posse, mesmo com
pequenas divergências. Eram os políticos que queriam rasgar as leis e ferir a
ordem e não os Militares de Ontem. Nessa época, há o segundo grande choque da
esquerda. No XX Congresso do Partido Comunista da URSS (1956) Kruchov coloca a
nu a desgraça do stalinismo na URSS. Os intelectuais esquerdistas ficam sem rumo.
Juscelino chega ao fim e seu
candidato perde para o senhor Jânio Quadros. Esperança da vassoura. Desastre
total. Não foram os Militares de Ontem que rasgaram a lei e feriram a ordem.
Quem declarou vago o cargo de Presidente foi o Congresso Nacional. A Nação
ficou ao Deus dará. Ameaça de guerra civil e os políticos tocando fogo no País
e as Forças Armadas divididas pelas paixões políticas, disseminadas pelas
"vivandeiras dos quartéis" como muito bem alcunhou Castello.
Parlamentarismo, volta ao presidencialismo,
aumento das paixões políticas, Prestes indo até Moscou afirmando que já estavam
no governo, faltando-lhes apenas o Poder. Os militares calados e o chefe do Estado
Maior do Exército (Castello) recomendando que a cadeia de comando deveria ser
mantida de qualquer maneira. A indisciplina chegando e incentivada dentro dos
Quartéis, não pelos Militares de Ontem e sim pelos políticos de esquerda; e as
vivandeiras tentando colocar o Exército na luta política.
Revoltas de Polícias Militares,
revolta de sargentos em Brasília, indisciplina na Marinha, comícios da Central
e do Automóvel Clube representavam a desordem e o caos contra a LEI e a ORDEM.
Lacerda, Ademar de Barros, Magalhães Pinto e outros governadores e políticos
(todos civis)incentivavam o povo à revolta. As marchas com Deus, pela Família e
pela Liberdade (promovidas por mulheres) representavam a angústia do País. Todo
esse clima não foi produzido pelos MILITARES DE ONTEM. Eles, contudo, sempre à
escuta dos apelos do povo, pois ELES são o povo em armas, para garantir as Leis
e a Ordem.
Minas desce. Liderança primeira de civil;
era Magalhães Pinto. Era a contra-revolução que se impunha para evitar que o
Brasil soçobrasse ao comunismo. O governador Miguel Arraes declarava em Recife,
nas vésperas de 31 de março: haverá golpe. Não sabemos se deles ou nosso. Não
vamos ser hipócritas. A senhora, inteligente como é, deve ter lido muitos
livros que reportam a luta política
daquela época (exemplos: A Revolução Impossível de Luis Mir - Combates nas
Trevas de Jacob Gorender - Camaradas de William Waack - etc) sabe que a
esquerda desejava implantar uma ditadura de esquerda. Quem afirma é Jacob
Gorender. Diz ele no seu livro: "a luta armada começou a ser tentada pela
esquerda em 1965 e desfechada em definitiva a partir de 1968". Na há, em
nenhuma parte do mundo, luta armada em que se vão plantar rosas e é por essa
razão que GORENDER afirma: "se quiser compreendê-la na perspectiva da sua
história, A ESQUERDA deve assumir a violência que praticou". Violência
gera violência.
Castello, Costa e Silva, Médici, Geisel e
João Figueiredo com seus erros e virtudes desenvolveram o País. Não vamos
perder tempo com isso. A senhora é uma economista e sabe bem disso. Veio a
ANISTIA. João Figueiredo dando murro na mesa e clamando que era para todos; e
Ulisses não desejando que Brizolla, Arraes e outros pudessem tomar parte no
novo processo eleitoral, para não lhe disputarem as chances de Poder. João
bateu o pé e todos tiveram direito, pois "lugar de Brasileiro é no
Brasil", como dizia. Não esquecer o terceiro choque sofrido pela a
esquerda: Queda do Muro de Berlim, que até hoje a nossa esquerda não sabe desse
fato histórico.
Diretas já. Sarney, Collor com seu
desastre, Itamar, FHC, LULA e chegamos aos dias atuais. Os Militares de Hoje,
silentes, que não são responsáveis pelas desgraças que vivemos agora, mas sempre aguardando a voz do Povo.
Não houve no passado, nem há, nos dias de hoje, nenhum militar metido em roubo,
compra de voto, CPI, dólar em cueca, mensalões ou mensalinhos. Não há nenhum
Delúbio, Zé Dirceu, José Genoíno, e que tais. O que já se ouve, o que se escuta
é o povo dizendo: SÓ OS MILITARES PODERÃO SALVAR A NAÇÃO. Pois àquela época da
"ditadura" era que se era feliz e não se sabia...Mas os Militares de
Hoje, como os de Ontem, não querem ditadura, pois são formados democratas. E irão garantir a Lei e a Ordem, sempre que
preciso.
Os militares não irão às ruas sem o povo ao
seu lado. OS MILITARES DE HOJE SÃO OS MESMOS QUE OS MILITARES DE ONTEM. A nossa
desgraça é que políticos de hoje (olhe os PICARETAS do Lula!) - as exceções
justificando a regra - são ainda piores do que os de ontem. São sem ética e sem
moral, mas também despudorados. E o Brasil sofrendo, não por conta dos
MILITARES, mas de ALGUNS POLÍTICOS -
uma corja de canalhas, que rasgam as leis e criam as desordens.
Como sei que a senhora é uma democrata,
espero que publique esta carta no local onde a senhora escreve os seus artigos,
que os leio atenta e religiosamente, como se fossem uma Bíblia. Perfeitos no
campo econômico, mas não muitos católicos ou evangélicos no campo político por
uma razão muito simples: quando parece que a senhora tem o vírus de uma
reacionária de esquerda.
Atenciosa e respeitosamente,
GENERAL DE DIVISÃO REFORMADO DO EXÉRCITO FRANCISCO BATISTA
TORRES DE MELO